Arquivo de setembro de 2006

O último dia na Europa, rumo pra casa…

domingo, 24 de setembro de 2006
Amsterdã realmente tem muita bicicleta…
Mais uma noite acampando na borda do Loire, uma maravilha, uma vista magnífica quando vou dormir e quando levanto logo cedo, mesmo com o frio e, dessa vez, sem chuva. Perfeito. Levantei 6h50, mais ou menos a mesma hora de sempre, com o diferencial que dessa vez eu acordei levantei mesmo e comecei a arrumar as coisas, comi e tudo mais, sem essa de ficar mais 10 minutinhos. E como não choveu, tava tudo bem sequinho, só embaixo da barraca mesmo que tava meio molhado, mas perto dos outros dias isso não era nada. Consegui colocar tudo dentro da sacola, meio apertado, mas foi, porque ontem nem tinha dado certo, ficou coisa de fora, muita água e capim junto. E o dia começou bem e continuou bom, sem chuvas ou qualquer ameaça de chuva pela frente. Pude sair tranquilamente, depois de ir ao banheiro, porque isso é uma coisa clássica. Pedalei com calma até o centro, dei mais umas voltinhas por lá, tirei mais umas fotos, agora com o sol batendo de outro lado, essa é a vantagem de pegar o início e o fim do dia na cidade, pode-se observar as coisas em todas as horas. Até no camping mesmo tirei mais umas fotos, já que o cartão tava livre mesmo, aproveitar pra tirar foto. E acho que ela ficou bem legal, porque não importa só a quantidade, mas a qualidade da foto. Somando-se ainda o tanto de filmagem, tenho bastante material pra fazer o documentário, site, livro ou o que eu quiser fazer.
No centro aproveitei e fui em busca de alguma padaria pra comprar alguma coisa e levar na viagem, porque imagino que em Paris vai ser pauleira, pedalae e ainda desmontar a bike e tudo mais, nem vai dar tempo pra mais nada. É bom deixar garantido. E foi melhor mesmo, comprei um sandudiche e 4 pain au chocolat, porque tinha uma promoção, levava 4 pain au choco por 1,70€, gastei no total 4,40€. E aí começou uma coisa interessante que iria se repetir mais à frente, na hora que fui pagar, não achava um lugar pra deixar a bike e pegar as moedas no bolso, ainda com a luva, então uma mulher se dispos a segurar, achei estranho, mas sei lá, vai saber. Só que nessa vida nada é de graça mesmo, depois ela pediu dinheiro pra comida. Coloquei a mão no bolso e saiu uma moeda de 0,02€, fazer o quê?! Sorteio é assim mesmo, se tivesse saído uma de 0,5€, mas foi só isso mesmo, ela fez cara feia, mas acho que tá bom. Depois fiquei pensando que seria melhor ter dado um pain au chocolat pra ela.
Dei mais uns rolé pelo centro, passei numas ruazinhas estreitas e obscuras, depois fiquei na praça Martroi, junto a estátua da heroína virginal francesa, Joana D’Arc. Aproveitei pra anotar algumas coisas nos meus papeizinhos, mas o cheiro do esgoto tava meio complicado, acho que passa bem embaixo ali, e tem uma grade, então acho que subia o cheiro, mas é assim mesmo. Pelo menos a estátua dela ao nascer do sol era bem linda, ficava de frente pra ele, a melhor hora pra tirar foto, ainda mais que o dia estava praticamente sem nuvens, uma beleza mesmo. Um bom dia pra guardar de lembrança do Loire.
Já passam das 9h30, em uma hora estarei indo pra Paris onde troco de estação e sigo direto até Amsterdã. Uma pena não parar na Bélgica, mas preferi ficar mais tempo mesmo na França dessa vez. Em outra oportunidade eu faço Bélgica e Holanda, ou apenas um ou outro. Ver as coisas com mais calma e mais detalhes, pra ir saboreando melhor, não só pedalar que nem louco.
O trem chegou, perguntei qual era o vagão pra subir com a bike, ele me indicou e só pediu que eu aguardasse um pouco até que o funcionário desgrudasse o trem do vagão que seria o último. E na hora de subir a bike, com todas as bagagens, outro funcionário da SNCF até ajudou com um belo empurrão, porque subir aquela escada com a bike cheia de coisas não é nada fácil. E ela é larga, às vezes engata na porta, complicado. Dessa vez foi bem tranqüilo. Deixei ela inteira, com todas as bagagens mesmo, apesar de ter anotado que era preciso ensacar a bike. Mas aí não daria tempo pra eu ir de uma estação a outra em Paris, como ninguém reclamou, nem falou nada, até ajudaram a subir e ajeitar a bike a ficar mais firme pra não cair. Totalmente diferente do trem que peguei para Suíça, no qual paguei até multa por ter levado a bicicleta sem reserva, isso que eu avisei que levaria a bicicleta.
Os trens realmente são bem pontuais, cheguei na hora exata em Paris, mas até descer e pegar o rumo vai um certo tempinho. E a viagem foi bem rápida e tranqüila, é muito perto, acho que menos de 150km. A paisagem é aquela de sempre, verde varrido, alguns moinhos de vento modernos que geram energia e dentro do vagão algumas pessoas que só ficam olhando pra fora, outras lendo, uns jovens também lendo, mas era revista Bravo, de fofocas, como as Capricho da vida. E todos eles com seus celulares modernos, cheios de recursos e ficam usando na viagem toda, inclusive pra telefonar, porque os celulares funcionam em praticamente todo o território, esses dias vi uma mulher falando ao celular numa fazenda perdida no meio do caminho, muito bizarro isso. Além do celular, chiclets e máquinas fotográficas digitais, claro, porque isso é um item essencial hoje em dia. Todo mundo tem uma nem que seja mais ou menos pra ficar tirando foto e lotando o PC de fotos. Eu fiquei sentado de costas (pra observar a bike), naqueles bancos duplos, ou seja, fiquei de frente pra um cara que devia ser da Índia ou de algum país daqueles lados de lá, ele tinha daqueles cubos coloridos que vai virando até encaixar todas as cores. E ele era bem rápido nisso, não sei se por prática ou se ele fazia sempre igual, treinou um jeito de embaralhar e decorou os passos. Porque às vezes ele nem olhava pro cubo e conseguia fazer, muito bizarro isso, mas vai saber. De repente ele tem um dom pra isso.
Cheguei na hora em Paris e fui da Gare D’Austerlitz até a Gare du Nord. O trânsito estava horrível, mas como eu estava de bike, tanto faz, porque vou pela pista exclusiva para ciclista. Só fiquei com medo de que chovesse, mas apesar de algumas nuvens, nublado, não houve nenhuma precipitação. E pra variar, a Europa toda em reforma. Verão, eles aproveitam, a Gare estava um canteiro de obras, mas foi tranqüilo entrar lá. Desmontei a bike, guardei e logo vi em qual via o trem iria chegar. Nem peguei carrinho, foi meu erro. Porque pra variar, era o penúltimo vagão, e eram 2 trens grudados, tive que andar muito levando a bike e as malas, nem sei como consegui. Eu não sabia, vi o primeiro vagão era o 22, achei que fosse diminuindo, e como o trem estava meio em curva, nem vi até onde ele ia, fui andando e o número foi aumentando, achei estranho, perguntei se era esse trem mesmo, ele confirmou e disse que era mais pra frente e lá fui eu carregando todo esse peso e muito ruim de carregar por sinal. Meu braço ficou meio duro, meio sem resposta depois, mas com o tempo, durante a viagem recuperei o movimento natural. Só a mão direita que ainda tá meio estranha devido as marchas que tenho que trocar a toca hora, mas talvez seja a posição muito alta dela, que força meu dedo. Chegando em casa, na hora de montar, vejo isso direitinho.
Só sei que deu na estica, subi no trem e as portas fecharam e ele saiu andando. Mais um pouco eu perderia, aí estaria fodido. E um fato a ser ressaltado é que enquanto eu desmontava a bike veio uma pedinte insistente e ficou lá querendo alguma moeda, e eu querendo desmontar tudo e ela me enchendo o saco. Depois ainda vieram mais duas. Imagine se eu der uma moedinha pra cada uma delas, daqui a pouco eu que estou pedindo.
Pouco depois eu fui ao banheiro e bateram na porta, era o cara do ticket, talvez ele achou que eu fosse penetra. Peguei a passagem e mostrei pra ele. Depois comi o sanduíche e os pain au chocolat, porque já tava com fome a essa hora, depois de ter feito um certo exercício.
Como eu tinha muita viagem pela frente e a paisagem passa rápido, nem dá pra ver nada direito, às vezes nem tem o que ver mesmo e mais uma vez eu estava de costas, resolvi fazer um balanço de quantos quilômetros eu já tinha feito de bike. Resultou em 1866,82km, mas ainda faltam uns dados e preciso conferir os outros. Ou seja, foi mais ou menos o que eu havia pensando, 2000km.
Chegando na Bélgica vejo chuva. Quando o trem parou em Bruxelas às 2h20 era chuva mesmo. Ainda bem que nem passei por lá, mas é bom saber que quando eu for tenho que ir mais preparado para o frio e chuva. As cidades são muito próximas, em poucas horas estava em outro país completamente diferente, isso é muito interessante aqui na Europa. Basta andar um pouco pra mudar muita coisa. Mesmo assim ainda tinha muito trilho pela frente, somando-se as paradas que ele vai fazer, demora um pouco ainda. O que me resta é esperar, olhar as pessoas, olhar o verde-varrido e descansar um pouco. Fui ao banheiro de novo, porque é sempre bom descarregar as coisas que não nos interessam mais e aliviar o peso.
É até interessante pensar que daqui a pouco estarei num país totalmente diferente e dentro de mais algumas horas estarei no Brasil, em casa. Depois desses 30 dias longe, sozinho, me virando como dava, uma coisa de louco isso, toda essa experiência, fotos, fatos, vídeos. Daqui pra frente não sei se irei entrar em contato com alguém antes de chegar em Sampa, acho que só lá mesmo. Mas pelo menos deixei todos avisados que estava tudo certo e eu ia chegar em casa no dia previsto mesmo, com todas as coisas. Não vejo a hora de poder ligar pro meu amore e dizer: cheguei! Aí vamos matar um pouco a saudade que já é muita, porque faz um mês e meio que estamos longe, isso é muito tempo pra nós, mas na medida do possível vamos acostumando.
Até Amsterdã passei por muitos trechos que chovia muito, comecei a ficar preocupado com relação ao camping e mesmo como andar pela cidade com chuva, não é uma coisa muito agradável quando não se está preparado pra isso. Para minha alegria o trem chegou pontualmente e o tempo estava bom, apesar de umas nuvens escuras por perto. Desci todas as bagagens e a bike. Dei início ao processo de montagem, levei uns 40 minutos e a roda da frente não ficou muito boa, ficou raspando novamente no freio, não consegui ajeitar e também mais algumas poucas horas estaria desmontando-a novamente pra transportar no avião. Então fui assim mesmo.
Aí começaram os problemas. Fui procurar informação na Gare, mas não encontrava. Em frente, do outro lado da rua, achei uma placa de informações turísticas. Cheguei lá e estava fechado, mas tinha uma máquina que vendia mapa da cidade a 2€, resolvi comprar, porque assim ficaria bem mais fácil pra mim. Problema dois: no mapa não constava o endereço que eu tinha do camping. Não tinha a menor idéia de onde ele ficava. O mapa mostrava bem o centro e pontos turísticos, mas como o camping ficava mais retirado, não contava no mapa. Depois descobri que era perto do aeroporto. Problema três: chuva. Começou a chover. Chover forte. Voltei pra Gare e fui procurar novamente por informações. Dessa vez rodei, rodei e encontrei. E realmente o mapa tem que comprar, eles não fornecem como nos Office de Turisme da França. Mas também esse não era tão caro assim. E quando eu voltar já terei o mapa. Pedi pra moça informações sobre albergue e camping. Pra reservar nos albergue que ainda tivesse vaga, porque a maioria estava lotado já, tinha que pagar 3,5€ e depois mais a diária. E nos campings tinha que ir vendo. Pensei em ir no perto do aeroporto, mas com essa chuva ia ser uma nhaca pra montar e desmontar logo cedo.
Ainda esperava a chuva passar. Olhei no mapa com os campings da cidade que peguei no balcão de informações qual a direção que deveria pegar. Mas pelo avanço das horas, distância, complicações de montagem e desmontagem na chuva, resolvi então fazer uma coisa mais prática, porém não muito recomendável de se fazer sempre: ir direto ao aeroporto e esperar.
Saí do centro, da estação, mais ou menos às 20h, fui indo tranquilamente, sem pressa, pra ver um pouco da cidade, até tirar umas fotos só pra dizer que passei por lá e registrar o tanto de bicicletas que tem. Muito legal isso, nunca vi tanta bike assim, parece que só tem bicicleta na cidade. Me perdi um pouco também naquele monte de canais, mas depois que peguei o rumo certo não tive mais problemas, eu acho que estava olhando o mapa ao contrário do que era, aí não tinha como chegar mesmo. Já estava escurecendo por causa das horas e do clima, então nem deu pra tirar mais fotos depois de uma certa hora. Foi só pedalar pra chegar ao aeroporto mesmo. Mas antes coloquei uns plásticos na bike porque parecia que vinha mais chuva pela frente, e é sempre bom estar garantido. Um pouco mais pra frente um ciclista veio falando comigo em holandês, não entendi nada, depois ele falou em inglês, aí deu pra manter uma comunicação básica. Ele queria saber se eu tava vindo ou indo, de onde vinha, essas coisas. Aproveitei e perguntei se pra chegar no aeroporto era por essa direção mesmo, ele confirmou e eu fui indo. E também tinha placa que indicava a direção para quem estivesse indo de bicicleta. Um pouco mais pra frente começou uma garoa fina, aumentou um pouco, mas não passou disso. Estava meio constante e molhou um pouco. Mas ia secar rápido. Peguei a rua Amistel inteira, vários bares que vendem a cerveja com esse nome. Seguindo o canal fui indo, indo e indo. Era bem longe mesmo, porque dava muita volta, tinha muita curva, mas eu tinha tempo e era de graça. E assim foi uma forma de pedalar em Amsterdã. Eu andei mais do que o esperado. Já tinha feito uns 20km quando apareceu uma placa indicando mais 13km até o aeroporto. Mas era muito tranqüilo de pedalar por lá, sem subidas ou descidas, sem vento forte, uma maravilha, por isso tem tanta bike no país. Num ponto mais próximo ao aeroporto tinha 3 indicações, não sabia qual seguir, fui numa vi que não ia dar em nada. Voltei na outra, mas acabei chegando no hangar de manutenção e escritórios da KLM. Só restou a última alternativa que deu certo, claro. E era bem longe ainda, uns 6km. Mas também, só pra contornar o estacionamento que é gigante, foram uns 4km. Sei que ao todo, no dia, fiz 56,46km em 4h11, deu bastante tempo porque a maioria eu ia empurrando e depois andando devagar pra não respingar a água acumulada no chão por causa da chuva. Cheguei ao aeroporto só às 22h30. Demorei mais do que imaginei. Comecei achar bom ter ido direto, assim poderia fazer tudo com calma e tranqüilidade, evitar problemas e atrasos. Comecei a desmontar a bike e organizar as bagagens, troquei algumas coisas de bolsas, deixei o essencial na mão e o resto despachei. E a bike eu encaminhei no setor de cargas com medidas especiais, mas ninguém me cobrou nada, não sei se pago na hora que chegar não entendi, só sei que é melhor assim.
Entrada principal do aeroporto de Amsterdã

Tive um monte triste no aeroporto. Fiquei olhando minhas garrafas de água que me acompanharam por quase todos os 30 dias, me hidratando durante o percurso. Pensei em leva-las pra casa, de lembrança, mas não tinha onde levar. Elas ocupam muito espaço. Não tive outra alternativa se não jogá-las no lixo. Foi uma cena triste, mas necessária.
Terminei de arrumar tudo era quase meia noite, se for ver o tempo que demorei pra chegar até a hora de estar com tudo pronto pra embarcar não sei se daria certo se eu tivesse feito como o planejado, de ficar num albergue, acordar umas 7h, tomar café e sair. Capaz de não dar tempo. E se chovesse ou se acontecesse algum imprevisto, aí sim eu estaria ferrado. O único inconveniente foi não ter tomado banho, mas de qualquer forma ficaria um bom tempo sem banho, e iria pedalar e desmontar e organizar as coisas mesmo, no fim nem mudou tanto assim.
E quanto a ver a cidade, já era noite mesmo, e de manhã não ia dar pra ver muita coisa, não tinha o que fazer mesmo além de esperar. Deu pra ter uma boa noção da cidade e acho que ter ido ao aeroporto direto foi o melhor mesmo nesse caso. Se eu tivesse só uma mochila, poderia ter optado por ir de metro, ônibus, logo cedo, mas pedalando tudo fica mais complicado. Como ficar em camping de bike, demora muito pra se organizar e eu ainda iria pedalando, talvez me perderia, ia ser um sufoco, tudo na correria, poderia dar algum problema e até perder o vôo.
Comecei a sessão cafeína. Comprei uma garrafa 0,5cl de coca e um croissant, paguei 5,45€ e o croissant era horrível. Só tinha preço. Tem até o Burguer King, um pouco mais caro que na estação do centro. Mas isso de novo não. E no avião eu como mais. Apesar de ainda ter bastante tempo pela frente.
Já são quase uma hora da manhã, fui escovar os dentes, porque fiquei com a necessaire juntamente com os copos da Coca e os eletrônicos na bolsa de mão. Que além de ser o principal, é o mais frágil. Os dentes pelo menos eu limpei, porque tava precisando, só o banho e a barba mesmo que não teve jeito.
E lá se foram os 30 dias, agora faltam umas poucas horas apenas para o embarque, depois tem mais uma pequena maratona e casa, comida e banho.
Como eu tinha tempo e não tava afim de dormir, resolvi ver se tinha conexão wifi no aeroporto, assim, de graça, porque ter eu sabia que teria. E de graça lá só o ar pra respirar mesmo, e os banheiros, ainda bem. Pude ir várias vezes, pra escovar os dentes e tudo mais. Quanto ao wifi paguei 10€ no cartão pra usar durante 24h, apesar de que usei umas 4h e pouco. O que deu um custo bom de uso. Sem contar que fiquei teclando com o meu amore durante um tempão, no final nem sei ao certo quanto, mas foi muito tempo. E ela estava com os amigos estudando em casa, acho que acabei atrapalhando um pouco as coisas, mas eu queria tanto teclar com ela, dia 21, um dia especial pra nós, e foi o segundo que passamos longe, seguido. E outra coisa boa foi o fato de eu ter achado uma tomada pra plugar o Pocket, se não nem teria como usar por tanto tempo. Tive que ficar com ele no colo, porque não era perto da mesa, mas foi tranqüilo. Ele é levinho e pequeno.
Tomei mais um capuccino 1,5€ e depois mais um café 1,5€. Foi bom pra me manter acordado e liberar o peso das moedinhas do bolso. Tinha tanta, mas que não dava nada.
No mais só esperei mesmo, pra depois ficar mais tempo sentado, mas em locomoção. Aí anda um pouco, pega ônibus, anda mais, mais ônibus e casa. Reta final da maratona, coragem e vontade nessas horas.

Última visão de Amsterdã, a janelinha da passagem até o avião que me levaria ao Brasil

Como passei o dia acordado direto irei continuar a falar o que fiz aqui mesmo. Lá pelas 7h fui fazer o checkin. Demorei uns 30 minutos. Apesar de ter os pontos de auto-atendimento, achei melhor ir no caixa, por causa da bike e tudo mais. E agora estou quase contando o tempo em minutos para o embarque. Esperei um pouco, passei os portões, tranquilamente, dei uns rolés rápidos pelas lojinhas, mas achei tudo meio caro, só as promoções mesmo que valem a pena, o resto é o preço normal.
Parênteses 1: o dia amanheceu lindo, com um sol brilhante.
2: a bike pesa 19kg.
3: já se foram as 24h acordado direto.
4: quanto mais perto chega da hora parece que o tempo fica mais longo. Quando era meia noite, de repente era 1h, e mais um pouco 2h, mas quando faltava meia hora não passava. 10min então…
Pode ser pelo simples fato de eu já estar mais de 10h no aeroporto, fica meio maçante, mas tudo bem.
Embarquei, me sentei, dormi só alguns minutos, depois não consegui mais. Fiquei vendo filmes, vi três: Scary Move 4, Boa Noite, Boa Sorte e O Matador. O primeiro foi em inglês e os outros dois dublado em português. Até que foram bons os filmes, e o Boa Noite, Boa Sorte é muito bom mesmo. Até que não tinha dormido tanto no cinema de Sampa. No mais, só comi, bebi, fui ao banheiro, estiquei as pernas, escrevi no Pocket, fiquei escutando música, mas o tempo não passava, é muita coisa. E vai ter mais um pouco ainda, mas como eu já disse, coragem.
Uma coisa é certa, apesar da saudade, da distância, do desgaste, dos problemas, eu faria tudo de novo.

Vigésimo nono dia (20/08): rumo Orléans

domingo, 24 de setembro de 2006

E aqui chego no meu último dia na França, amanhã parto para Amsterdã, Holanda. Mas foi uma viagem muito boa pra mim, estava pensando nisso nesses últimos dias, tudo o que passei, tudo o que vivenciei, vi, senti, as pessoas que conheci, as trocas de experiências, tudo isso me ajudou de alguma forma, foi tudo muito bom, muito válido.
Levantei hoje lá pelas 7h novamente, como de costume, depois de ter chovido à noite, como de costume também, arrumei as coisas molhadas e sujas de grama como de costume, mas dessa vez elas nem entraram direito no saco da barraca, tive que deixar algumas coisas de fora, mas tudo bem. O importante é que eu consegui carregar tudo. Só que mais uma vez tive que ir em busca de uma padaria pra comer alguma coisa, pois fazer 16km logo cedo sem comer não tem jeito. Fiz um bem reforçado, sanduíche, croissant e, como não poderia deixar de ser, pain au chocolat, tudo isso por 4,70€. Já eram quase 10h quando fui seguindo as placas que indicavam como chegar a Beaugency de bicicleta, o percurso tem 16km e é bem demarcado. Comecei por um caminho de asfalto no meio de uma floresta, com algumas plantações, campo aberto. De repente comecei a ver duas chaminés enormes. Cada vez elas estavam mais perto. E como o ritmo da pedalada era bom, não demorou muito até eu chegar na borda do rio, onde haviam alguns pescadores, e a usina nuclear de geração de energia. Eu nunca tinha estado tão perto de uma. E ela é gigante. Estava funcionando a meia força, saia fumaça de uma chaminé. Sei lá, dá medo essas coisas, mas acho que eles tem um bom controle de segurança, ainda mais depois dos famosos acidentes ocorridos em alguns lugares. O percurso continuava por dentro de cidadezinhas e trilhas entre muros centenários, coisa que só vê quem faz de bicicleta mesmo. Depois passava por uma plantação de milho, coisa comum por aqui, e mais floresta. Aí peguei um trecho mais no final de uns 2km de chão batido mesmo. Mas não tive problemas em andar, mesmo carregado. E logo pude ver a cidade de Beaugency, depois de 1h de pedalada e 18km percorridos, 2km a mais porque fui em busca da padaria. Chegando lá, fui até o Office de Turisme que estava fechado, então resolvi explorar a cidadezinha na raça mesmo. Filmei os pontos principais e comi um Éclair de café. Esse doce é como a nossa bomba ou carolina, só que bem maior, mais comprida, e com muito recheio, é uma bomba calórica e de açúcares, muito bom pra quem pedala, paguei 1,45€, acho que foi a mais cara até agora.
Numa passagem encontrei um banheiro meio sujo, mas como eu só queria desaguar mesmo, fui lá. Quando saí tinha um senhor de bicicleta que veio falar comigo, perguntar da bicicleta, da viagem, de onde eu vinha, pra onde eu ia, o que eu fazia, de profissão, essas coisas. Ficamos falando do Brasil, de futebol, de bicicleta, da França, foi muito legal isso. Ele era bem animado.
Logo depois segui até Orléans, dessa vez pela N152 mesmo, pra chegar mais rápido. E foi bem tranqüilo mesmo, meio dia eu estava na entrada da cidade. Tinha visto que na cidade vizinha havia um camping, mas antes fui até o centro, pra conferir no Office de Turisme se era o único e o mais perto. Realmente era. Voltei até o camping, uns 5km, mas a recepção abriria só as 17h, e mal eram 13h. E li nos papéis da parede que antes era preciso fazer o registro, porque se não eu ia montar a barraca de deixar as coisas aqui, pra ir com menos com peso. Voltei ao centro, comi um Kebab, creio que o último da viagem. Acompanhado de fritas e uma latinha de coca, claro, por 5€. E esse era bem generoso. Fiquei comendo e vendo TV, canal TF1. Vi uns comerciais, é tudo meio parecido no mundo todo, na TV nada se cria, tudo se copia. Isso em todo o mundo, não só regionalmente, em cada país. Tem os reality shows, jornais, programas de entretenimento, comerciais estranhos, tudo igual.
Fui filmar a cidade antes que chovesse, porque vinha vento do lado de nuvens escuras. A hora que saí deu uns pingos, mas logo passou, alarme falso. Em contrapartida isso queria dizer que logo mais vinha com mais força, porque já aconteceu isso antes. Esperei um pouco, e já eram quase 14h. Filmei os principais pontos da cidade pelo o que eu ia vendo no mapa, e a cidade é muito linda, pequena, sem contar o fato de ser domingo, tudo vazio, fechado. Foi bem rápido pra fazer, sem problemas. Só a hora que choveu mesmo, esperei um pouco, mas foi bem rápido. É bom, porque estou perto de Paris, e espero que amanhã não chova, pelo menos na hora que eu for de uma Gare a outra, se não, vai molhar um pouco.
Avenida Joana D’Arc e ao fundo a Catedral imponente de Orléans

Como eu tinha um tempinho sobrando, fui usar a internet numa lan house, ver se encontrava o meu amor online de novo, mas dessa vez não deu certo, domingo de manhã, lá eram umas 10h, ela estava fazendo algo melhor que isso. E também nem devia imaginar que eu entraria na internet novamente. Mandei um e-mail pra ela, outro para o Alexandre da CVC e aproveitei pra transferir as fotos da câmera para o cartão do Pocket. Ainda cabiam umas 20 fotos, mas achei melhor aproveitar o momento e zerar. Vai que eu preciso de um pouquinho a mais depois. Já que eu ia pagar 3€ pra usar mesmo, já fiz tudo.
Depois aproveitei pra gastar os meus últimos 4 minutos do cartão telefônico e liguei para o meu amore. Eu estava numa cabine telefônica ao lado da Catedral de Orléans, famosa e imponente. E como muitas outras construções, em reforma. Ainda bem que dessa vez deu certo, ela mesma atendeu, falamos apenas um pouco, mas foi um pouco bem intenso, muito bom poder ouvir a voz dela, e matar um pouco da saudade. Ela disse que bateu o carro, estou louco pra saber melhor essa história como que é, porque nem deu tempo pra falar isso, tínhamos coisas melhores a falar. Mas passou voando esses 4 minutos. E agora nem sei quando falarei novamente, acho que só quando chegar em Sampa. Mas o importante é que não falta mais muito para voltar pra casa, aí tudo volta ao normal, a rotina que às vezes é boa também. Mas acima de tudo, estar perto do meu amore.
Já tinha feito tudo, visto tudo o que queria, era hora de ir ao camping. Cheguei lá perto das 16h30 e fiquei esperando. De repente um senhor veio falar comigo e disse que eu poderia montar a barraca e depois fazer o registro. Eu achei que poderia fazer isso também, mas tava escrito aquela porcaria. Então ele me mostrou um outro papel que dizia que poderia montar e depois fazer o registro. Que boston, e eu fui e voltei, fiquei preocupado e carregado à toa, mas é assim, vivendo a aprendendo. Acabei de montar a barraca e guardar as coisas, a recepção abriu, fui lá, paguei 5,5€ e perguntei onde tinha supermercado. Ela me deu um mapinha que ela mesma fez, xerox, mas o problema é que nada abre hoje. Não teve jeito, fui jantar no McDonald’s. Escolhi o Big Tasty, que é o melhor custo benefício e ainda ganhei outro copo, amarelo agora. Acho que fico com esse e dou o outro pro meu amore, não sei ainda. Gostei desse amarelo desde que vi na foto. E aqui foi 0,10€ mais barato que o último, paguei 6,70€. Depois do jantar, passei na padaria comprar umas coisas (4,10€) pra comer amanhã, porque não sei se dará tempo de comprar alguma coisa no caminho. Tenho que levantar, arrumar as coisas e ir pra Gare. Subir a bike no vagão, sei lá, melhor deixar garantido. Com a comida garantida posso comer durante o trajeto até Paris, porque lá vai ser pior ainda. Mais pauleira. E creio que terei que comprar alguma coisa no trem mesmo, espero que tenha o vagão de restaurante, ainda mais que é uma viagem longa, deve ter sim. Tem umas coisas boas, quentes. Um pouco caras, mas qual o preço de comprar comida num trem em movimento, não é mesmo?!

Estátua da Joana D’Arc, no centro de Orléans

Depois de ter feito tudo isso, já passava das 19h, resolvi levar o Pocket até o banheiro, porque tem uma bancadinha muito boa pra apoiar e usar na tomada, assim posso escrever durante um bom tempo sem me preocupar e ainda deixo a bateria cheia. Eu tinha muita coisa escrita em papéis e precisava passar a limpo, pra não acumular muito e perder muitos detalhes quando fosse escrever o diário. Fiquei umas 2h em pé escrevendo, mas valeu a pena, porque foi de graça. E ficar meio corcunda dentro da barraca também não é nada bom.
Hoje andei até que bastante, nesse vai e vem do centro-camping, totalizando 74,33km em 4h24. E os gastos totais foram de 27,45€, hoje foi bom, abaixo dos 30€ estipulados por mim mesmo. Sendo que eu queria manter a média assim, hoje foi o esquema. Deu tempo pra me organizar, ver o trajeto que farei em Paris e ainda coloquei o diário em dia. Depois disso tudo, descansei bem. Foi muito bom aqui em Orléans.

O descanço merecido, no último dia na França, antes de voltar pra casa…

Vigésimo oitavo dia (19/08): rumo a Muides-sur-Loire

domingo, 24 de setembro de 2006

Como sempre, além de ficar acordando durante a noite, vi no relógio que eram 6h e pouco, voltei a dormir. Só quando já eram 7h e pouquinho é que tomei vergonha na cara e levantei pra arrumar as coisas, já que demora mesmo. Dessa vez comprei umas coisas pra comer da boulangère que foi até o camping, é uma coisa normal aqui a padaria ir até o camping, porque as pessoas querem pão logo cedo. O problema é que as pessoas que vão em camping são aquelas que vão bem equipadas, ou seja, elas tem fogãozinho, panela, mantimentos, tudo. Eu queria sanduíche, mas só tinha baghette e pain au chocolat e croissant, claro. Comprei croissant e pain au chocolat, só pra variar um pouco. Gastei 1,65€.

Acabei de arrumar tudo e segui para o primeiro grande castelo do trajeto, Amboise. Cheguei pra almoçar, um pouco antes até, comprei um sanduíche num lugar muito bem decorado, moderno, em contraste com o grande castelo em frente. Paguei 3,5€ e estava muito bom. Filmei o castelo, um pouco da cidade, e não tinha mais o que fazer a não ser seguir.
Cheguei em Chaumont-sur-Loire às 12h30 depois de ter rodado 40,54km. Percebe-se que a pedalada rende mesmo. Mal passava do meio dia e eu já tinha feito tudo isso, levando em conta que saio tarde, é bem tranqüilo. Parei nesse pequeno vilarejo por alguns motivos: o castelo, a chuva e a comida. O castelo eu tinha fotografado já do outro lado do rio, mas a chuva estava vindo, então resolvi parar, comer e descansar. Acabou nem vindo chuva, melhor assim, só descansei e comi mesmo. E o sol continuava brilhando e refletindo no Loire e às vezes na minha cara também, mas é bom, melhor que chuva. Inclusive hoje o tempo estava muito bom, não sei se porque ontem eu tive uma experiência um pouco ruim, mas eu olhava para os lados e tava tudo aberto, poucas nuvens, o vento vinha, mas as nuvens carregadas não.
Antes das 14h eu já estava em Blois. Uma bela cidade, deu vontade de parar por aqui mesmo e ficar mais tempo aproveitando, mas o problema é que estou quase no final da viagem e não tenho mais muito tempo. E a vontade de fazer e ver ainda muitas coisas é grande. E não sei como será o clima, o que pode acontecer nesse trajeto, coisas como furar pneu, ficar sem camping, sei lá, tudo pode acontecer. Filmei, tirei foto e lá veio a chuva. Estava na hora dela, depois do almoço normalmente é o segundo período. Aproveitei e fui pra estação resolver a vida em relação a minha ida até Amsterdã, afinal de contas já estou com o dinheiro que saquei em Tours e creio que se for deixar pra comprar somente em Orléans pode ser tarde demais, não dar certo, sei lá, melhor garantir agora, numa cidade menor mesmo, mais tranqüila, mais tempo pra ficar no caixa pensando e conversando com o atendente. E foi muito bom mesmo. Vi os dias e horários que eu tinha pensado e visto na internet já, acabei optando pelo dia 21 às 10h36, de Orléans a Paris. Terei que ir da Gare D’Austelitz até a Gare du Nord, desmontar a bike e embarcar para Amsterdã. Terei 1h10 pra fazer isso. Ir de uma Gare a outra, desmontar a bike e achar a plataforma de embarque. Outra opção seria ir no dia 20, no final da tarde, mas aí eu chegaria em Amsterdã às 23h. Imagine eu lá, a essa hora, ia dormir na rua. Dessa forma que escolhi vou chegar lá às 17h, ainda claro, mais fácil de achar as coisas. E outra, prefiro ficar mais tempo na França, no Loire. Em outra oportunidade eu vou pra Holanda especificamente.
Paguei 110,10€ na passagem e mais 1€ no capuccino que tomei.
Não vai dar pra ver muito da cidade, porque até eu montar a bike, achar um lugar pra ficar, comer, vai estar tarde, mas pelo menos passarei por lá. E terei que levantar cedo pra ir ao aeroporto, desmontar bem a bike e despachar tudo, embarco às 10h, isso vai ser mais complicado ainda, dependendo da distância que eu estiver do aeroporto, mas depois que eu estiver no avião, já é meio caminho andando. Depois só terei que resolver a questão de ir até a rodoviária de São Paulo, com todas as bagagens e pegar o ônibus pra Ribeirão Preto, com todas as bagagens. Mas aí acabou.
E o dia aqui ainda não acabou. Tomei o capuccino, esperei a chuva passar, não demorou muito, aproveitei pra telefonar pra casa. Depois telefonei pro escritório da Neusa, mas o Xuxa que atendeu. Falei até bastante com ele, ele disse que a Neusa tava passando mal, meio doente, deve ser a saudade. Ainda tinha uns 4 minutos no cartão, resolvi ligar para o meu amore, mas ninguém atendeu. Liguei no celular e também não deu nada. Mas tudo bem, amanhã eu procuro alguma Lan House em Orléans e/ou telefone pra ela.
O tempo estava bom, estava cedo, já tinha registrado as principais coisas da cidade, o caminho era bom, os quilômetros passam rápido, resolvi ir até Chambord de uma vez por todas. Porque assim, amanhã terei mais tempo pra poder organizar as coisas. Já ganho um bom tempo.
Cheguei em Chambord, peguei um caminho para bicicletas que passa por dentro da floresta de Chambord, muito legal isso, lindo, mas tive que esperar um pouco a garoa que começou a cair. E isso não era um bom sinal porque indicava que poderia vir mais. Enquanto o tempo estava bom, fui filmando e tirando fotos. Da frente, do lado, de trás, das coisas perto, da mata, floresta, pessoas. Aí começou a chover pra valer. Parei debaixo de um telhado do centro de informações e aproveitei pra comer o lanchinho que eu havia comprado em Blois na La Mia Caline, eu gostei dessa grife de padaria, eles dão sacolas amarelas, boas pra guardas as coisas.
O meu problema agora era quanto ao camping. Ali perto não tinha nada, tudo reserva natural, eu teria que ir até uma cidade um pouco fora do caminho uns 9km. Mas fui pesquisando nos guias de campings que eu havia pego e achei um muito bom em Muides-sur-Loire. Eu havia me confundido com outro camping nessa mesma cidade que é de 4 estrelas, bem caro, mais de 20€. Achei que não teria jeito, mas havia também um camping municipal, na borda do Loire e por 5,5€, perfeito. Fui voando pra lá, porque já passavam das 19h, e mesmo sabendo que a recepção fica aberta até mais tarde, o problema era pegar lugar, arrumar as coisas, ir jantar, tudo isso demanda tempo. Só pra chegar lá já demorei uns 20 e poucos minutos. Fiz o registro, paguei, montei a barraca, tomei banho, fui jantar. Tinha um restaurante bem ao lado do camping, mas o menu mais barato era de 30€. Andei mais um pouco e parei num lugar que era Bar e Restaurante. Aí foi rootZ. Tinha só uns caras bebendo e falando alto. O dono mesmo bebia junto e até jogou sinuca com um cliente depois. Escolhi o menu de 14€ e um vinho de 2,5€ de 25cl da região de Touraine. De entrada veio a saladinha com alface, tomate, ovo (em conserva dessa vez), milho, presunto e azeite. Claro que o pão sempre acompanha. Pedi água da torneira pra beber também. Com a salada bebi água, pra economizar o vinho.
O prato principal eram uns bolinhos de batata fritos, bem bonitos e saborosos e carne de Agneau, umas tirinhas. Acho que era tudo congelado e ele só esquenta ou frita. Porque o molho da carne tinha gosto de coisa pronta. Isso que é foda desses lugares. Porque o dia que peguei o menu de 13€ foi tudo muito bom, feito por eles mesmo, na hora. Mas tudo bem, não tinha outro lugar mais barato pra comer mesmo e lá parecia bem limpinho. Depois ainda veio uma seleção de 3 queijos, emmenthal, cammembert e brie. E pra finalizar uma taça de sorvete sabor pistache e passas ao rum, escolha minha.
Durante o meu jantar surgiu uma família, acho que de alemães, muito grande, vieram, beberam umas coisas e foram embora. Ficaram só os bêbados mesmo e eu.
Chateau de Chambord

Acabei de jantar já eram 22h. Voltei até o camping, escovei os dentes e dormi, porque além de escuro, precisava descansar depois de um dia cheio. Pedalei bastante, 94,08km em 5h15. Mas como pode se notar novamente, é bem mais tranqüilo pedalar por aqui. E esse tempo é o total, contando quando ando mais devagar nas cidades, até empurrando a bike algumas vezes.
E os gastos do dia foram relativamente baixos, teve o pseudo-café-da-manhã por 1,65€, o sanduíche por 3,5€, o jantar da La Mia Caline (sanduíche e maxi pain au chocolat) 5€, o capuccino 1€, o camping 4,60€ e o jantar que foi o supra-sumo dos gastos 16,50€, o que totaliza 36,25€. Foi bastante sim. Tenho que dar uma maneirada de novo.

Vigésimo sétimo dia (18/08): de Chinon a Vouvray

domingo, 24 de setembro de 2006

Sexta-feira, a última que passo aqui na França, porque agora tá assim, contagem regressiva para voltar. Será um pouco complicado eu acho, pois terei que ir direto de Orléans até Amsterdã, passando por Paris, o que vai dar um pouco de trabalho, pedalar de uma estação a outra. O pior mesmo é desmontar a bike, mas vou fazer meio nas coxas, que nem a outra vez. Só mesmo quando for embarcar no avião é que terei que fazer direitinho, mas aí vale a pena.
Acordei, sem comer nada, entrevistei a família belga que viaja de bicicleta, porque vi que eles já estavam ensacando as coisas pra ir embora, seguir viagem. Falei com o chefe da família, o Sr. Serge Pecheur e a esposa dele, Sra. Marie-Helene Pecheur, ele médico, ela veterinária. Foram muitos simpáticos, falaram umas coisas interessantes e acho que isso vai acrescentar bastante no documentário. Uma família toda que viaja de bicicleta e ainda fica em campings.
Depois disso ainda lavei algumas roupas na máquina que tem no camping, o problema foi que eu não tinha nenhum produto, acabei jogando um sabonete líquido, um gel de banho mesmo, mas acho que o próprio calor e mexidas que deu na máquina já ajudou bastante na limpeza, pelo menos tirou aquele grosso. A toalha de banho já estava muito usada, porque nem no sol mais eu estava deixando. Aí começou a ficar complicado. Agora deixo a toalha na parte de cima, na bicicleta, pegando sol e ventilando um pouco. Está dando certo porque ela seca e fica nova denovo.
Tinha amanhecido um dia lindo, sol brilhando, nem deu vontade de ir embora, guardar as coisas, deu vontade de ficar ali apreciando um pouco mais tudo aquilo. Mas mal deu tempo de pensar isso e o tempo fechou. Aqui é assim, com esse tanto de vento que tem, as coisas mudam muito rápido, e se não estiver preparado, molha mesmo. E passa rápido, isso que é engraçado e problemático. Às vezes uns 20 minutos de chuva faz molhar tudo e depois o resto do dia fica sol e nublado. Mas já está tudo molhado.
Ao fundo o rio Loire

Depois de ter feito tudo isso, ainda fui ao centro da cidade, que bastava atravessar a ponte, procurar alguma padaria pra comer alguma coisa. Achei uma, comprei sanduíche e um pain au chocolat, estou gostando desse pain au chocolat, como todo dia. Quando tem o Maxi então, é uma maravilha. Comi na borda do Loire, observando o rio e o tempo. E pelo visto ia chover mesmo. Apesar disso era preciso ir. Achei que daria tempo de seguir um pouco pelo menos. E foi só um pouco mesmo. Subi um morrinho e logo veio a chuva. Parei num ponto de ônibus às 11h08 e esperei. Nem sabia ao certo se era por lá mesmo o caminho, mas tudo levava a crer que sim, porque me perdi um pouco pra sair da cidade, como já está de costume. As indicações às vezes são um pouco complicadas, mas vamos que vamos. Pelo menos eu já tinha comido, e não faria tantos quilômetros hoje, além do que creio que o percurso não é dos piores. Ruim estava só o tempo mesmo, caiu uma aguaceira tremenda, parecia que ficaria o dia todo assim, pra qualquer lado que eu olhasse estava tudo fechado. E eu lá, no ponto de ônibus sentado, esperando. Uma senhora chegou, ficou 1 minuto, abriu o guarda-chuva e continuou. Depois um casal de jovens do outro lado da rua sentou um pouco e continuaram na chuva mesmo. E os carros passando, o tempo passando. Começou de leve e depois choveu muito mesmo, ainda bem que fiquei lá, se não seria outro desastre, isso que as coisas nem estavam bem secas ainda. Não poderia molhar tudo novamente, ainda mais com tantos papéis e coisas eletrônicas. Eu colocava uns plásticos, mas isso não adiantava muito, por causa do vento e da água que respingava de baixo pra cima.
Poucos dias aqui na França e, no Loire mais especificamente, e já estou me habituando ao esquema das chuvas. Basta sentir o vento de onde vem, se for de lado onde estão as nuvens carregadas, o que normalmente acontece, é porque vem chuva e é bom procurar abrigo se não quiser se molhar, porque o vento faz molhar tudo, mesmo com guarda-chuva, isso se ele não desmontar. E eu ainda esperando passar, dessa vez parecia que ela veio com vontade mesmo de molhar. Fiquei até às 11h45 sentado esperando e observando o movimento, foi a hora em que tudo parecia ter entrado na maior das calmarias, o vento continuava, mas a chuva já tinha passado. Resolvi ir, com alguns plásticos por cima, os mapas ensacados também, porque ainda sobra a água da pista que levanta ao andar e quando os carros passam, então é bom proteger. E realmente deu certo, tudo chegou seco e salvo em Azay-le-Rideau, onde começou a cair uns pingos novamente. Aproveitei a parada de abrigo da chuva pra comer umas batatas e mal tinha acabado o sol voltou com força total.

Gare de Tours

Tirei foto do castelo e continuei, não quis ficar muito aí, porque tenho muita coisa pra ver ainda e muito chão pra andar. E dependendo do clima, pode ser que os meus planos vão por água abaixo, literalmente.
A próxima cidade foi Villandry, pedalei à toa, porque o castelo fica escondido atrás de uns verdes, não dava pra ver nada. Dei um pulo e bati uma foto, mas ficou meio tosca e tremida, vou tentar pegar de algum catálogo ou internet mesmo, só pra ilustrar. E pra completar, começou a chover novamente. Hoje tava um dia complicado, chovia e parava a toda hora. O problema é que eu já estava a caminho da outra cidade, então tive que procurar qualquer lugar na rodovia mesmo pra me abrigar, ainda bem que achei uma passarela e fiquei lá mesmo. Sem muito conforto, de pé, com a bike querendo cair a toda hora, porque era meio inclinado, coloquei uma pedra na pneu e segurou. Aí veio outro problema, eu precisava ir no banheiro e ali não tinha como fazer. Ficava muito na beirada da rodovia e não tinha nenhum cantinho, e a chuva não passava, vinha o vento frio, eu ainda comi e bebi mais, tava complicado, mas segurei firme e forte. Acho que fiquei uns 20 minutos ali debaixo esperando em pé e querendo ir ao banheiro. Logo mais a frente pude realizar o meu desejo e seguir mais tranqüilo e mais leve até Tours.
Os quilômetros rendem muito no Vale do Loire, porque é muito plaino e não tem muito vento contra, dava pra pedalar a mais de 20km/h, às vezes 30km/h sem esforço, isso faz render muito, ainda com a paisagem linda, passa muito rápido, quando eu via, já tinha feito mais 10km. Em relação a outros percursos que eu fazia média de 10km/h ou menos, esse aqui era perfeito. Acho que por isso tem tanto ciclista, ciclo turista e roteiro para bicicletas aqui no Vale do Loire, tem roteiros específicos para seguir o rio, ver os castelo, andar pelas matas, é só escolher.
Em Tours, aproveitei pra sacar mais dinheiro. Fiz algumas compras ao longo do dia, no jantar até esbanjei e comprei um vinho meia garrafa de Saumur Champigny pra beber e cair de novo. Ainda mais depois por tudo que passei nesse dia, de tanto chuva que tive que desviar, esperar, isso foi me deixando estressado, sem saber se daria certo pra chegar até onde planejei. A quilometragem parece muita, mas foi bem tranqüila de ser feita, tanto que os 77,48km eu fiz em 4h08. E somando os gastos de café-da-manhã 3,75€, umas compras 3,19€, camping 5,5€ e mais compras pro jantar 8,87€ foi bem na média.
Ao todo gastei 21,31€, acho que tá bom levando em conta tudo o que comprei.

Vigésimo sexto dia (17/08): Loire

domingo, 17 de setembro de 2006

Tentei dormir depois do dia de ontem, que foi realmente foda, um dos piores da viagem, junto com a ida Genebra. Mas de qualquer forma é sempre um aprendizado, é sempre alguma coisa a mais que se vê, no final, depois de uns dias, darei até risada disso. Só na hora mesmo que é complicado. Acordei até cedo, mas tive muitas coisas a fazer, começando pelo fato de ir ao banheiro. Depois, comer. Arrumar as coisas, ou seja, desmontar e colocar tudo na bike, mas antes ainda dei uma olhada no guia de campings e no roteiro a seguir. Hoje estava bem fácil, sempre reto. Sem complicações.
Saí do camping já eram quase 10h, mas tudo bem, porque as distâncias daqui pra frente serão um pouco menores e creio eu que mais plaino e espero que sem tanto vento contra, porque isso segura muito a pedalada.
O dia amanheceu bom, apesar da chuva que caiu a noite toda, mas foi fraquinha, nem molhou muito. Foi só o tempo de deixar os equipamentos carregando e secou um pouco, quase tudo na barraca. Porque o sol já aparecia.
Sair sem café da manhã e encarar uma pedalada grande dessas não é fácil, por isso, parei numa cidadezinha, procurei a boulangerie, e pedi algo salgado, a moça disse que faria um sanduíche. Foi muito bom isso, aquela baghette enorme. E ainda pedi um doce que era um flan de chocolate com coco por cima e ele ficava numa massa de biscoito. Perfeito e muito energético. Comi e continuei a pedala, mas uns 5 minutos pra frente tive que parar, porque precisava fazer a digestão. Esperei mais uns 15 minutos e continuei, aí foi mais tranqüilo. As subidas ainda fazem parte, mas bem menos íngremes, só o vento contra insiste em continuar, vamos ver até quando.
Agora já não estava longe de Saumur. Já vi a placa indicando uma Maison du Turisme, resolvi parar lá mesmo pra obter informações. Peguei um mapa da cidade e um com rotas de bike com os lugares pra ficar, tanto hotel, quanto camping, chambres d’hote, tinha de tudo, muito bom. Apesar de que pra mim só interessa o camping.
Mais uns 5km cheguei na cidade, muito linda, bem do jeito que eu gosto de ver mesmo. Li no guia da Folha que essa parte é uma das mais francesas e creio que seja mesmo. Apesar de ter muitos turistas na cidade, ela não fica com cara de turística.
Filmei um pouco, comi um kebab com steak, que é o hamburguer. Paguei 4€, depois bebi uma Coca 1,60€. Procurei uma lanhouse pra usar internet, mas estava lotado, resolvi ligar pra casa então. Dessa vez consegui encontrar a mãe em casa, porque eram umas 10h lá. Falei com ela e a minha conta no banco tá tudo certo. Menos mal. E no mais tava tudo certo também.
Voltei ao local da internet, agora já tinha um livre, paguei 3€ pra usar 1h e tive a felicidade de encontrar o meu amore online, porque ela estava no trabalho. Não trabalhou muito nessa hora, mas eu também não avancei nada na viagem, então estamos na mesma. E foi muito bom poder teclar com ela, falar muitas coisas. O problema foi que deixei o cartão na bike e não vi o quanto ainda posso sacar, mas em Tours ou em Orléans mesmo eu tento ver. Ou vou na tentativa e erro.
Bom, o papo tava bom, mas já se passou uma hora e já eram 16h30 e eu precisava continuar. Já tinha pego as imagens da cidade e precisava ir pra próxima. Vi que o tempo estava meio pra chuva, mas não pensei que pudesse chover. Como sempre, no meio do caminho, onde não tem onde parar pra se proteger da chuva, choveu e choveu muito. Dava umas rajadas de vento forte, raios, teve de tudo, parecia que ia acabar o mundo. Cheguei no camping de Chinon todo molhado, paguei os 5€, barato também pelo nível das instalações. Esperei um pouco comendo Pringles e em cerca de mais 10 minutos a chuva parou. Comecei a montar a barraca, deu mais uns pingos, mas depois parou de vez. Ainda bem. Porque já tava ficando tarde, eu precisava arrumar as coisas e ainda ver onde iria comer.
Encontrei uma família de belgas que viaja de bicicleta, na verdade é a primeira vez que eles vão com a família toda, mas é bem interessante isso, quero ver se amanhã ainda consigo entrevistá-los.
Arrumei as coisas, tudo molhado. Tomei banho. E vejo que preciso lavar as roupas mesmo, mas essas máquinas automáticas parecem tão complicadas. Sei lá, acho que vou acabar nem lavando nada, só na mão mesmo o que for necessário.
Então fui em busca de algum lugar pra comer, já que com aquela chuva nem tinha como parar no supermercado. Mas acho que isso foi até uma coisa boa, porque fui obrigado a ir num restaurante muito bom aqui. Pelo menos pra mim foi bom, porque achei barato e foi tudo muito bem servido, gostoso e substancioso.
Pedi o menu de 13€ e ainda água da torneira. De entrada vinha uma saladinha. Achei que seria um alface apenas, mas que nada, veio alface, um outro verde, milho, arroz, tomate, ovo cozido e um super molho que eles fazem, esse molho é o segredo da salada, como no que comi junto com o crepe a caminho de Strasbourg, era muito bom. O resto é o de sempre, sem segredo algum. Acompanhando isso ainda vinha pão. Acabei a salada e ela trouxe a galette. Era de queijo, presunto, crème de leite e champignon. E ainda tinha um pouco de alface e ovo poché. Perfeito. Tudo muito bom, saboroso e grande, encheu.
E pra finalizar, uma sobremesa básica, crepe com chocolate. Era a mesma massa da panqueca (galette), basicamente, mas com um pouco de chocolate por dentro, muito bom também. E paguei 13€ por tudo isso, num ambiente bom, podendo ver as outras pessoas comerem, falarem, saber como elas agem num restaurante. Tinha uma mulher que cortava a pizza e comia com a mão. Um senhor próximo a mim foi ao restaurante fumar, porque ele não parava, nem sei se comeu alguma coisa. Tinham muitas famílias que iam comer pizza, mas eu já estava meio saturado de pizza e de Kebab. Daqui pra frente vou tentar variar um pouco.
Hoje gastei um pouco mais, mas foi muito bom. E perfeito foi ter entrado na internet e o meu amore estar online, poder ficar 1h teclado com ela, falando sobre muitas coisas e seria melhor ainda se tivesse mais tempo, porque essa hora passou voando. Sei que estou com muitas saudades, mas logo estarei em casa novamente, na vida de sempre, normal, ao lado do meu amore, e isso é o que interessa, estar ao lado do meu amore. Essa viagem está sendo muito boa, apesar dos imprevistos, chuvas no meio do caminho só pra me molhar e molhar tudo o que carrego, mas apesar dos problemas, está sendo tudo de grande valia. Espero que o documentário fique bom, já que não vai ter muito tempo de duração, cerca de 30 minutos, mas acho que será pouco pra mostrar tudo, vamos ver.
Bom, já é tarde novamente, o restaurante realmente demora pra servir os 3 pratos. Isso que a moça foi muito atenciosa e ágil com o pedido. Mas mesmo assim, até servir, comer, tirar, e assim sucessivamente, demora um pouquinho. E como eu já fui tarde, voltei pro camping às 22h. Escrevi sobre o dia de ontem e hoje, tudo meio corrido, por cima, só pra não deixar perder muita coisa, outra hora reviso e acrescento mais detalhes que eu for lembrando ao ver as filmagens e fotos. Agora já passa das 23h e preciso dormir pra descansar e acordar cedo pra arrumar tudo, porque amanhã será mais um longo dia, dessa vez, a borda do Loire. E o tempo está acabando, faltam poucos dias.

Vigésimo quinto dia (16/08): rumo ao Loire

quinta-feira, 14 de setembro de 2006
Le Mans
Hoje foi um dia foda, deu um monte de coisa errado, mas no final foi bom. Afinal, alguma coisa tinha que compensar.
Saí do camping às 9h20, um horário bom, relativamente cedo pela média dos últimos dias. Segui pela D304 rumo a Conlie, com 13km rodados em 40 minutos, parei pra comer alguma coisa. Achei uma boulangerie/patisserie e comprei um quiche e um folhado de maçã por 2,10€ os dois. Já eram 10h40 quando continuei até La Milesse onde mudei o caminho até a pequena cidade de La Chapelle-Saint-Aubin. Na verdade todas cidades pelas quais passei eram muito pequenas, então é até redundante falar isso, mas é bom pra reforçar a idéia.
Dessa última cidade cheguei direto a Le Mans, faz divisa. Às 11h57 cheguei na cidade depois de 35,18km apenas e em 1h58. Procurei logo o centro e o Office de Turisme, mas tava difícil achar, pois as placas eram meio confusas, chegavam num ponto e mudavam as informações, então não sabia que direção pegar. Fui olhando nos pontos de ônibus que direção pegar, porque era mais fácil. Até que finalmente consegui chegar, mas nisso já havia passado um tempo precioso.
Aproveitei pra sacar o dinheiro. Achei o caixa, tentei tirar 400€ não deu, diminuí pra 390€, depois 380€. Acabei tirando só 160€. Mas para os próximos dias dá e sobra, eu acho. Quando eu estiver mais perto ou em Orléans eu saco mais, ou a mesma quantidade ou um pouco mais, se der. Porque irei precisar basicamente pra comprar a passagem de trem, no mais é camping e comida.
Em Le Mans almoçei, gastei 5€. Descansei um pouco, filmei a catedral e algumas partes do quai, a parte mais bonita da cidade, porque o resto eu achei muito feio e sujo, com muito lixo jogado nas ruas, tudo meio abandonado. Não gostei da cidade não. Então resolvi ir até o circuito, afinal, a cidade é famosa por isso, pelos carros e corridas. Inclusive tem representação de várias marcas de carros, até bem próximas umas das outras.
O problema é que essa pista fica muito longe pra ir de bike, mas já que eu estava lá, não custa ir mais próximo. Rodei uns 16km até chegar nessa bendita pista. Peguei umas imagens e tive que voltar, porque a minha entrada ficava há 16km da pista. Se eu tivesse de carro teria sido mais perto, mas o caminho levaria a uma autoroute ou por uma national grande. De bike nem rola. Só sei que rodei muito na cidade, não vi quase nada e perdi tempo.
A grande questão agora era saber até onde eu iria conseguir chegar. Porque a hora já estava avançada e eu não encontrava a saída exata. Resolvi ir por um caminho, parei num supermercado pra me abastecer com algumas coisas. Dessa vez eu esbanjei, porque era muito barato tudo por lá. Comprei vinho, shampoo, sandudiches (3), Pringles, chocolate e gastei apenas 9,83€, foi muito bom isso, porque iria me sustentar na viagem, no jantar e café da manhã.
Perguntei no mercado qual era o caminho, a moça indicou, mas quando cheguei lá era uma rua sem saída. Pode ser que eu tenha entendido errado, vai saber. Tinha uns caras que instalam placas em rodovias, fui perguntar a eles. A minha sorte é que eles tinham um mapa, então anotei os nomes das cidades que eu deveria seguir até retomar a rodovia que eu queria. Cheguei na última cidade que eu havia marcado, mas não tinha camping, ou melhor, ter até tinha e de graça, mas o chuveiro não funcionava. Então olhei no mapa de campings que peguei em Le Mans e segui mais 14km até uma cidade onde teria camping, bom, e era no caminho. E foi muito bom mesmo. Camping 3 estrelas e preço super bacana. Paguei 7,70€ porque pedi tomada elétrica que acabei nem usando tanto assim, nem sei porque pedi. Sem a tomada custaria 5,60€, muito bom para o nível do camping. Sem contar que eu já havia rodado 121km em 6h50 e já passam das 19h. Era hora de ficar em algum lugar mesmo.
Le Mans

Armei a barraca, arrumei tudo, coloquei as bagagens pra dentro, tomei banho porque era muito necessário e jantei, também muito necessário. Comi muito e bebi vinho. Só sei que capotei depois disso. Levantei umas horas mais tarde, escovei os dentes e até ia fazer mais alguma coisa, ver os campings no guia que a moça me emprestou, ver o roteiro, as cidades, mas eu estava muito cansado, foi um dia que me deixou muito estressado porque andei muito e não saí do lugar. Isso é muito ruim.
Mas apesar de tudo consegui dar uma boa adiantada nas coisas, digo, no percurso, porque finalmente cheguei na região do Loire. Tanto que o camping fica na beira do rio, o nome dele já diz tudo Au Board du Loire. A dona era muito atenciosa, o clima do lugar muito bom e eu dormi, dormi muito.

Vigésimo quarto dia (15/08): rumo ao incerto

quinta-feira, 14 de setembro de 2006
Ernée faz parte da rota do Tour de France
Depois do telefonema de ontem, da noite mal dormida e da incerteza até onde ir pra que eu consiga ver os principais castelos do Loire, acordei numa manhã fria, com névoa por tudo e a barraca um pouco molhada. Isso já está virando uma constante. Mas enfim, esperei mais um pouco, até umas 8h, mas nada de aparecer o sol. Ainda estava aquele tempo fechado e frio. Pensei: não posso ficar aqui o dia todo, tenho um longo caminho a percorrer e nem sei se tem muita subida, como que serão as coisas. Passei um papel pra tirar um pouco da água de cima da barraca e guardei assim mesmo. Guardei o resto das coisas, amarrei tudo na bike e segui no frio de Fougères às 9h40. Via vários ciclistas que passavam por mim ou vinham na outra direção, todos cumprimentavam, era incrível isso, mais que o frio que fazia. Até que um veio e ficou ao meu lado. Começou a conversar, achando que eu era polonês, disse que tem um visinho que é polonês, depois disse que eu tinha bastante peso pra levar e assim foi indo a conversa. Num dado momento, numa subida de 2km, com o sol já aparecendo, ficou quente, parei pra tirar o casaco. Continuamos e ele sempre ao meu lado com a bike de estrada, sem fazer esforço e eu me matando nas subidas. Ficamos lado a lado por cerca de uma hora, até que resolvi parar pra descansar e comprar umas coisas pra comer num mercadinho que vi aberto em Larchamp.
Comprei um saquinho de pão de leite, vinham 10 pequenos, comprei um queijo de cabra muito bom, 1l de suco de abacaxi e um pacote daquelas bolachas power, gastei 5,39€. Tomei o suco e preparei os sanduíches.
Eu estava pedalando só pelas estradinhas que passam pelas fazendas, mas era meio ruim porque não tinha muita informação pra saber se eu estava certo. Segui até Ernée, tudo fechado, feriado. Só numa rua que tinha movimento, o pessoal tava fazendo uma festa. Vi uma oficina da Citroën aberta e pedi um pouco de óleo para a corrente. Acho que o óleo que ele colocou não era muito recomendável, mas era o que eu tinha, e de graça, feriado, foi perfeito. A bike já estava fazendo uns barulhos estranhos na corrente, porque pegou chuva e ficou no sereno, perdeu todo o óleo que tinha, sem contar que desde que tirei da loja, só andei. De qualquer forma ela ficou perfeita. Sem mais barulhos, estava rodando solta de novo, muito bom isso. Apesar da volta que dei, valeu a pena.
Dessa cidade segui mais 24km pela N12 até Mayenne, que dá nome a região. Parei mais um pouco, comi mais um pãozinho com queijo de cabra e continuei. Parei em Gracay e em Bais, onde enchi as garrafas de água no cemitério. Uma senhora vinha vindo e perguntei onde era a torneira, ela me indicou e perguntou algumas coisas, entre elas, se eu era francês. Devo estar falando bem mesmo.
No mais foi só pedal, estrada e pensar onde exatamente eu iria parar. Vi no mapa e nas placas que uma boa cidade seria Sillé-le-Guillaume, fica uns 35km de Le Mans, isso faz com que eu possa dar umas voltar e almoçar lá e ainda seguir mais uns 70km em direção a Saumur. Eu tinha pensando em ir um pouco mais adiante, até Conlie, mas o tempo começou a fechar, até caiu uns pingos, achei melhor parar por aqui mesmo, já eram 17h, já tinha feito 101,26km em 5h31, o que dá uma boa média, apesar das várias subidas que peguei, eram quilométricas. Por isso lembre-se, depois de toda descida tem sempre uma subida e vice-versa e, que dependendo o ponto de vista, uma subida pode ser uma descida. Isso é uma lição de vida.
Armei a barraca no camping de 6€, mas parecia bem ajeitado. Pingaram umas gotas, mas não chegou a chover, ainda bem. Comi uns biscoitos, tomei banho e aí o sol voltou até forte novamente. Bom pra secar as coisas. Estava com um pouco de fome, porque passei o dia com o que comprei no mercadinho e o resto de amendoim, ainda bem, porque no mais estava tudo fechado. Amanhã preciso comprar mais coisas e pegar dinheiro porque estou com vinte e poucos euros apenas. Depois zero. Fui, então, comer no bar do camping mesmo. Pedi um cheesburger com fritas, 5€. As fritas eram boas e tinha bastante, já o burger, era horrível. Feito no microondas, com a parte de baixo do pão junto, aí ficou seco, duro, uma torrada e o hambúrguer meio cru no meio, mas com fome, comi assim mesmo. Devia ter comido Nuggets, acho que seria melhor. Porque agora vou ficar pensando num cheesburguer melhor e vou ter que comer em algum lugar. Que nem a história do macarrão. Daqui a pouco vou querer comer feijão, mas ainda bem que já está no final e logo volto pra casa, comidinha da mamis e tudo mais.
Mas mesmo assim foi melhor do que tentar procurar algo aberto na cidade, que além de pequena, era feriado. Só ia pedalar mais, subida ainda.
E enquanto eu comia, deixei a câmera carregando a bateria de menor capacidade, porque a outra ainda está com uma boa carga, e assim creio que não terei problemas, só preciso ver onde irei recarregar o Pocket, acho que no banheiro, sempre tem uma tomada, pra quem quer usar aparelho de barbear. O problema é que terei que ficar lá esperando, mas tudo bem, qualquer coisa eu aproveito e uso lá mesmo pra escrever o diário.
No camping de Beauvoir tinha um menino ouvindo música num iPod na pia do banheiro, e aqui é melhor, porque são todas separadas, o problema é que tem que ficar apertando o botão da luz, se não apaga, parece uma coisa Lost, mas tranqüilo.
Pior que isso só o chuveiro mesmo, que não tinha o funcionamento como os outros, de apertar e sair água por um tempo. Aqui tem que puxar uma corrente. Enquanto puxa, sai água, pára de puxar, pára de sair água. Um maneta não toma banho sozinho. Sem contar que era duro o negócio, tinha que puxar com força mesmo. Foi um belo exercício.
Camping bizarro e comida ruim, mas foi o que encontrei. E como sempre digo, é apenas um dia. Então não tem problema, amanhã já estarei em outro lugar, e tudo vai ser diferente, talvez não melhor, mas diferente.
O bom é que aqui não é muito freqüentado, porque não é ponto turístico famoso, então tem só famílias mesmo. O problema são as crianças que gritam e ficam acordadas até tarde e levantam cedo com energia total. Acho que tem muitos alemães ou de outro país estranho, porque eles falam uma língua estranha.
Apesar dos pesares, hoje consegui um lugar bom, perto do banheiro, não preciso andar muito até chegar. Já tenho uns esquemas de levar a roupa numa sacola plástica pra não molhar no chuveiro, porque mesmo tendo proteção, sempre molha tudo. O que ainda falta aqui é um lugar pra poder plugar o Pocket, sentar, escrever e recarregar a bateria, como tem nos albergues, que pode ser feito no quarto mesmo ou no bar. Porque o bar do homem aqui é a cozinha e as mesas são todas fora. Internet então nem pensar. Outra coisa é que normalmente os campings ficam a uns 2 ou 3km do centro, pra quem está a pé é complicado, mas de bike ou carro é bem tranqüilo.
Meu único problema agora mesmo é quanto ao dinheiro. Até achei um caixa Visa hoje, mas estava fora de serviço, como no Mont Saint Michel. Espero encontrar amanhã, se não nem sei o que vou fazer. Usar cartão de crédito?! Mas não é todo lugar que aceita. Acho que em Le Mans ou mesmo na cidade aqui que estou irei conseguir sacar. No mais, faltam poucos dias e os castelos estão próximos. De acordo com os meus cálculos, se tudo ocorrer bem, poderei passar pela Bélgica, se não, direto a Amsterdã mesmo. Bom, agora vou esperar carregar um pouco o Pocket e ir dormir porque já passam das 21h, acho que as 22h é o horário bom pra ir dormir. Acordo cedo e bem descansado, com várias horas de sono. O saco de dormir até é bom. E esse contato com a natureza é fabuloso. Colocar o pé na grama, deitar no relevo do chão, sentindo a grama e as imperfeições do solo. Acordar e ver a grama, as árvores, é tudo muito lindo e mais barato.
Esse foi o meu dia, pedalei, pedalei e cheguei aqui, no meio do nada. Mas é bom pra poder me desligar um pouco das coisas, ficar em contato com a natureza, cheguei até a passar por várias florestas, uma tinha o Col (cume) de 258m, foi uma bela subida, de 2,5km, mas bem compensadora.

Vigésimo terceiro dia (14/08): rumo Fougères

quinta-feira, 14 de setembro de 2006
Ao fundo o castelo de Fougères
Ainda estou me acostumando com a barraca e sou presenteado com uma bela chuva durante a noite. A barraca amanheceu molhada, mas até aí tudo bem, eu ia esperar um pouco, o sol ia secar rapidinho, o problema foi que não vinha o sol, vinha mais chuva. Tentei desmontar tudo antes que começasse a chover mais, mas a chuva foi mais rápida. E foi só pra molhar a barraca mesmo, porque mais uns 15 minutos depois parou e saiu sol. Guardei tudo e segui meu caminho. Mais uns 20 minutos e choveu. Aí sim a coisa ficou feia. Guardei os mapas e roupas que estavam fora pra secar, coloquei tudo em sacolas que já estavam estrategicamente posicionadas para isso, apesar de que pensei que não iria usar. É sempre bom estar prevenido. Pedalei por mais uma hora, sem ter onde parar, porque a estrada não tinha nem acostamento, nem ponto de ônibus, nada. Cheguei em Antrain, logo na entrada da cidade havia um banheiro público aparentemente recém construído, com telhado, era o que eu precisava. Parei lá, comi, fui ao banheiro e esperei mais um tempo, cerca de 40 minutos parado. Enquanto eu estava lá, param três carros, acho que pra almoçar também. Dois estavam juntos, outro parou sozinho, e era inglês, com o volante na direita, muito engraçado isso. Encontrei vários carros assim nessa região da França. Deve ser bem complicado pra eles se acostumarem, lembrarem que estão em outro sistema de trânsito e mesmo pra poder fazer uma ultrapassagem.
Enfim, como a minha jornada de hoje era relativamente curta, não me importei em ficar um tempo parado, esperando a chuva passar. Com tudo isso e os 46,88km rodados em 2h46 cheguei em Fougères mais ou menos às 14h30. Fui direto ao centro da cidade, encontrei uma padaria da rede La Mia Caline, comprei um pacote promoção, um salgado, uma sobremesa e uma bebida. O salgado foi um pão com batata e uns pedacinhos de lingüiça, de sobremesa um maxi pain au chocolat e pra beber Coca-Cola, normal mesmo, de garrafa, 50cl. A nossa é de 600ml!!! Tudo aqui é menor, latinha, garrafa, só o preço é maior mesmo. Mas logo volto ao padrão americano e mais barato.
Fui no Office de Turisme, que era bem perto ali no centro, pedi mapas e informações. Fui ao camping arrumar a barraca e deixar as coisas lá pra ficar mais leve. Custou 4,65€, muito bom o preço e o lugar. Banheiros bem mais organizados, limpos e até divididos pra homens e mulheres.
Antes de mais nada, procurei algum lugar aberto que tivesse computador pra usar, mas estava quase tudo fechado, inclusive as lan houses. Amanhã é feriado e muita gente já parou, até parece o Brasil. Voltei ao Office de Turisme e perguntei onde eu poderia usar um computador. Ela disse que estava tudo fechado mesmo e eles até tem computadores lá pra usar internet, mas não tem USB. Então ela deixou eu usar o computador do próprio escritório, o que foi uma ajuda e tanto pra mim. Pude liberar o cartão pra tirar fotos do Château de Fougères e ainda conferir o que havia no pendrive que achei na estrada. É apenas um clip de alguma banda. Quando chegar em casa eu vejo e deleto.
Fiz o tour pela cidade, vi a parte medieval, o castelo, as igrejas, tudo que era interessante de ser visto. Depois passei no La Poste, recarreguei o cartão com mais 7,5€ e liguei pro meu amore, mas ninguém atendeu. Depois liguei pra casa, falei com o pai. Ele atendeu porque o Evandro trabalha, a Leilane devia estar no estágio e a mãe tá expondo e vendendo os artesanatos no Santa Úrsula Shopping, só sobrou ele mesmo pra atender. Falamos até que por um bom tempo.
Depois fui tomar banho, me arrumar, arrumar as coisas para o dia seguinte, que roupa usar, roteiro, essas coisas. Vi que o caminho seria bem tranqüilo, seguindo a rua do camping e indo tout droit, como dizem aqui.
Voltei ao centro, era meio longe, certa de uns 3km, mas de bike eu ia rapidinho, apesar da subida. Dei mais umas voltas, peguei mais umas imagens e comi um Kebab. Gastei 4,5€ com fritas. Salvem os Kebabs, é muito bom isso, barato e alimenta bem. Sem contar que ele fica no centro, na rua do Office de Turisme, as construções lá são todas bem antigas, é ponto de referência turística aquela rua. Pude me alimentar bem, barato e ainda admirar a arquitetura do lugar.
Voltei ao camping, escovei os dentes e liguei para o meu amore. No início tava tudo bem a conversa, depois acho que ela estressou porque tava atrasada pra reunião, ficavam tocando a campainha e ninguém atendia, então ela descontou tudo em cima de mim. Disse que toda viagem eu não dou bola pra ela, eu esqueço, não mando notícias, essas coisas. Disse que eu não respondi os e-mails que ela mandou. Mas pra mim foi difícil, porque passei por cidades pequenas que não tem essas coisas e com esse feriado estava tudo fechado. Em St. Malo que deveria ter algum lugar aberto, dei apenas umas passada, fiquei cerca de uma hora e meia andando e filmando tudo por lá. Depois fiquei no meio do nada de novo. Foi por isso que resolvi recarregar o cartão e dar notícias, mas parece que ela não gostou muito, sei lá, acho que foi mesmo o estresse e saudade juntamente com os problemas que ela tem que enfrentar, tudo acabou caindo em cima de mim, como eu já disse. Só achei um pouco complicado isso, porque ela diz que quando viaja sempre encontra uma lanhouse e manda e-mail, em Londres ela preferiu mandar e-mail em vez de passear com os pais. Se eu estivesse em Londres, com certeza iria numa lanhouse, porque é bem mais fácil de se encontrar do que na zona rural da França e mais barato do que telefonar. Sem contar que, como ela mesma disse, e-mails podem ser lidos a qualquer hora, na hora que der, telefone tem que estar os dois na mesma hora disponíveis. Concordo com ela, mas realmente não encontrei onde usar computador com internet. Porque quando descobri o do Office de Turisme já tava na hora de fechar.
Bom, daqui pra frente vou apenas mandar e-mails pra ela, se eu conseguir. Se não ligo no dia 21 apenas. Porque depois de ter escutado tanto desaforo no telefone, fiquei traumatizado. Sei que ela é insegura e deve achar que estou sendo cobiçado e estou aprontando todas por aqui, mas não tem nada disso. Estou apenas pedalando o dia todo, vendo um pouco de cada cidade que passo, registro alguma coisa e depois ainda tenho que montar e desmontar tudo, todo dia, nessa rotina de férias. A única barraca que estou armando é a que uso para dormir.

Vigésimo segundo dia (13/08): St. Malo e Mont Saint Michel

segunda-feira, 11 de setembro de 2006
Nas muralhas de St Malo
Domingão, mas pra mim tanto faz, porque tenho que pedalar mesmo.
Acordei, arrumei as coisas, comecei a desmontar a barraca e o Thierry veio ajudar. Eles foram muito prestativos o tempo todo, inclusive ela já havia me convidado a tomar café da manhã com eles.
Depois de tudo na bike, tomei o café que ela fez na hora, esquentou na panelinha, porque eles carregam um bujãozinho e panela. Ela me deu também uns biscoitos biológicos, como eles chamam os produtos naturais. Ambos os termos são estranhos se for analisar profundamente, mas o importante é que eles são mais saudáveis, ou deveriam ser.
Chegou a hora crítica, a despedida. Eles iriam ficar mais um dia no camping, pra conhecer a região. Mas eu tinha que seguir o meu caminho. Deu vontade de ficar mais, eles foram tão acolhedores, mas não tem jeito, tenho que ir. Anotei os nomes completos e e-mail. Os nomes pra colocar no documentário, já que peguei uma entrevista deles e o e-mail pra continuarmos nos falando. Ainda mais que eles estão programando uma viagem de bicicleta no caminho de Santiago de Compostela.
St. Malo estava perto. Fui seguindo as placas, indo pelas rodovias secundárias, cheguei rápido, pouco depois das 10h. Filmei o intramuros, andei um pouco por cima dele, dentro, dei umas voltas e peguei um mapa pra poder chegar ao Mont Saint Michel. Parecia perto, mas era longe. Dessa vez eu tinha o vento para me ajudar, pedalava sem problemas, velocidades entre 20 e 30km/h sem esforço.
Dava para ver o Mont Saint Michel há mais de 30km de distância. Parei numa cidade, que estava lotada, para almoçar. Comprei um sanduíche e uma barra de chocolate, gastei 4,40€. Sentei-me num desses locais que tem mesa e sombra, mas nem precisava, porque o tempo estava nublado direto. Sem contar o vento que soprava lá, tinha que segurar as coisas, se não saía voando mesmo, até o capacete com algumas coisas dentro saiu voando.
Continuei a caminhada, ou melhor, pedalava por mais uns 30km até um camping na cidade de Beauvoir, como a Anne havia me indicado. Apesar de eu ter ido em outro camping, não foi caro, 9,60€. Mas acho que o municipal deveria ser menos ainda. Bom, de qualquer forma aqui é legal, tem várias coisas, apesar de eu não usar nada, e tem café da manhã por 5€, de repente vale a pena. Só tive que comprar papel higiênico, mais 0,40€, porque nos campings não tem nos banheiros. E o banheiro era horrível lá, muito sujo e faltando as tampas nas privadas, mas era só um dia mesmo, então nem foi muito problema. Somando isso vai dar 15€ de hospedagem, mas acho que mesmo assim é bom ainda, porque não encontraria nada aqui perto por esse preço.
Finalmente fui ver o famoso Mont Saint Michel. Nunca vi tanta gente que queria ver a mesma coisa, na mesma hora e passando por uma estradinha apertada. A visão que se tem realmente é muito linda, uma coisa grandiosa e imponente. O problema eram as nuvens carregas que eu vi, mas o vento estava soprando em direção a elas, ou seja, provavelmente não vai chover.
Filmei, tirei foto, as últimas do cartão. Amanhã preciso, sem falta, achar um lugar que eu possa fazer a transferência, porque assim fico sem câmera. Mesmo assim deu pra tirar a foto que eu queria e filmei bastante, por fora, por dentro, por cima, ficaram bem legais as imagens. E tinha muita gente e muito carro, o trânsito horrível, parado. E chegava mais gente, era gente voltando, e assim o dia todo. Eu de bicicleta não tive problemas nesse trajeto.
Como eu estava cansado, voltei ao camping, tomei banho, comi alguma coisa que tinha na bagagem e telefonei pra Dona Neusa, fazia tempo que não dava notícias. O cartão já estava no fim, nem deu pra falar muito, mas acho que o básico deu pra falar. Depois ainda liguei rapidinho pra casa, avisando que está tudo bem e mandei um Feliz dia dos Pais. Mas nem deu um minuto e caiu a ligação. Amanhã vou recarregar e ligar para o meu amore. Uma pena ter acabado hoje, queria tanto ter ligado pra ela daqui, do Mont Saint Michel, mas de qualquer forma amanhã eu digo que passei por lá e pensei nela, como seria bom se eu também estivesse aqui quando ela veio. Seria perfeito ficar subindo e descendo as escadarias infinitas e se perder lá dentro.
O telefone fica ao lado do camping, voltei pra barraca, comecei a escrever o diário, comi mais um pouco e nem acabei de digitar caiu um pingo na tela. Que bosta. Fechei a barraca e deixei chover, ainda bem que tava de leve, mas o problema é que molha tudo, suja, sei lá, esse é o ponto negativo do camping e bike. Porque se está de carro ou num trailer, basta jogar as coisas lá dentro e pronto. Na hora de viajar fica protegido pela estrutura do veículo. Bom, eu escolhi fazer assim, agora tenho que agüentar as conseqüências de tudo que pode acontecer nesse tipo de viagem, com esse tipo de acomodação. Eu sempre quis fazer isso pra ver como que é, e realmente é fascinante, apesar dessas coisas que acontecem, só espero que amanhã o tempo amanheça bom, frio eu sei que estará, mas sem chuva, porque poderei continuar a viagem. Só fiquei pensando, e se chover amanhã, como vou guardar a barraca, como vou andar de bike, vai molhar tudo, que horror. Mas esperemos pra ver. Eu acho que o clima daqui pra frente vai melhorar quando for em direção ao Vale do Loire, lá parece ser mais quente, ou pelo menos, não com tanto vento.
E foi bem interessante sair de um camping pra outro, entrar na barraca e usar o Pocket, uma coisa meio antagônica como muitas que vi aqui na França, onde se tem um castelo de 500 anos e uma Mercedes zero na frente.
Hoje eu fiz uma boa quilometragem, 81,21km. Como tive o vento à favor, foi bem tranqüilo e gastei 5h05 pra fazer isso, sem contar que em muitos trechos eu empurrei a bike, pra ir apreciando melhor a paisagem, ou seja, o tempo roda e a quilometragem não. Mesmo assim foi uma boa diferença. Eu não me cansei, pelo menos em fazer esse trajeto como me cansei ontem, por exemplo. E a cada dia a velocidade média aumenta um pouco, hoje ela deu uma aumentada boa, mas fica em torno de 15km/h. Acho que é uma boa média para ciclo turismo.
Mont Saint Michel

Fiz tudo mais cedo hoje pra poder relaxar um pouco, traçar o roteiro que irei fazer, ver até onde acho que consigo chegar, colocar as coisas em ordem e curtir um pouco a barraca, ficar nela um tempinho, sem fazer nada mesmo, só deitado esperando o tempo passar e ouvindo as conversas ao redor em francês, inglês, alemão… E os carros que passam na avenida.

Vigésimo primeiro dia (12/08): Saí de Rennes

segunda-feira, 11 de setembro de 2006
Esse era o caminho do canal que andei por um bom trecho até próximo a St. Malo
Dessa vez não coloquei rumo a lugar algum, porque realmente eu não tinha ao certo. Sabia que em St. Malo estava tudo lotado, teria que ficar em alguma cidade próxima, só não sabia em qual. Mas com a barraca e o saco de dormir fica tudo mais fácil, as possibilidades aumentam consideravelmente.
Acordei relativamente cedo, lá pelas 7h, mas até tomar café e arrumar as coisas, agora mais coisas para serem arrumadas, demorei mais que o normal e comecei a pegar estrada só as 9h. Tinha que saber o rumo certo a pegar de bike, porque no mapa havia somente a rodovia nacional e uma outra que acompanhava, então fui confirmar se era essa mesma e como faria pra seguir esse caminho. Não tive problemas, haviam várias placas pelo caminho indicando St. Malo e uma bicicleta ao lado. Era uma rota para bicicletas. Mas uma coisa não saía da minha cabeça, o que a moça me disse sobre o caminho ao longo do canal. Achei que poderia ser interessante, mesmo sendo mais longo o trajeto, mas sei lá, acabei indo pelo asfalto mesmo.
Parei numa cidadezinha, daquelas que não tem nada mais do que a rua principal, que é a própria rodovia secundária, a igreja, a padaria, o mercadinho, a tabacaria e jornais, e claro, a pracinha. Comprei um pão e a especialidade local feita artesanalmente, o pâté. Escolhi o Campagne, e realmente era muito bom. Pra eu gostar de pâté é porque é bom. E ele me sustentou durante um bom tempo de pedalada, de fato é saudável e energético. Gastei no almoço com essas coisas 2,68€.
Continuei seguindo as placas que mostravam o caminho pra chegar a St. Malo de bicicleta saindo de Rennes. Num dado momento perdi essa indicação e atravessei o tal canal. Perguntei pra um casal de ciclistas que estavam parados ali se eu chegaria seguindo esse canal por essa direção, eles confirmaram e lá fui eu.
Com isso o meu dia foi misto, teve de tudo. A começar pelo trajeto em rodovia, que é só asfalto e carro, de vez enquanto uma cidadezinha ou uma fazenda para ver. Quando fiz o trajeto seguindo o canal, a pedalada rendeu mais. Além de não ter subidas e descidas, não tinha vento. Então eu fazia média de 25km/h sem esforço mesmo com o chão de terra batida. Dava pra parar mais, descansar mais e curtir mais. Sombras e bancos ao longo do trajeto.
Passei por Dinan, filmei um pouco o castelo no alto do morro, filmei a ponte e a árvore caída no meio do caminho. Foi meio complicado passar por ela estando cheio de bagagens. E ainda nesse trajeto encontrei várias pessoas andando a pé, de bicicleta, de barco, caiaque, remo, tinha de tudo. Vários pescadores ao longo do trajeto também.
O problema agora era comida, tinha acabado, mas eu já estava chegando, apesar de ter dado voltas e voltas desviando as rodovias principais. Pensei em comprar na cidade onde eu fosse acampar, porque agora estou munido de barraca. Numa cidade antes de St. Malo resolvi ir até o centro pra comprar alguma coisa, foi quando encontrei um casal de ciclo turistas, vi eles pararem e perguntei se estavam perdidos também. Eles disseram que os campings em St. Malo estão todos lotados, nas cidades bem próximas é muito caro, coisa de 30, 40€ pro casal. Peguei o meu guia de campings da Bretagna e começamos a ver onde teria o mais próximo, foi em St. Suliac. Fica a uns 2 ou 3 km de onde estávamos. Seguimos até lá, porque já eram umas 18h e tínhamos que achar algum lugar aberto, normalmente os campings recebem as pessoas até as 19h. Deu tempo e tinha lugar para os 3. E como eram mais pessoas, saiu 5€ pra cada. Wow! Muita economia. Pelo menos comecei bem, além de pagar pouco, ficar perto de St. Malo, ainda conheci esse casal muito simpático.
Eles ficaram realmente felizes por eu ter dado a dica do camping, porque quando saímos pra jantar, eles pagaram um chopp pra mim e depois na hora de pagar a pizza ela nem quis os 50 centavos. Aproveitei e comprei umas coisas no mercadinho que ainda estava aberto, porque pelo jeito vou passar por cidades que não tem esse tipo de coisa, só restaurantes e coisas pra turistas.
Pegamos a pizza e fomos comer no camping. Cada um com sua faca, sentamos no chão e comemos acompanhado de vinho que eles compraram. Bebi um pouco também. Eles me adotaram por um dia, porque além disso tudo eles me ajudaram a montar a barraca, porque eu não sabia nem por onde começar. Foi perfeito, agora já sei como montar, então fica mais fácil. Até tentei ler as instruções, mas além de estarem em francês, claro, os desenhos e ilustrações eram horríveis, nem um pouco intuitivas.
Barraca arrumada, pizza comida, tudo certo pra ir dormir. Hoje fui um pouco mais tarde que o comum, já passavam das 23h, mas foi um dia e tanto, acho que hoje senti o verdadeiro espírito do ciclo turismo.
Primeiro dia da barraca armada

De Rennes a essa cidade que era um charme, fiz um zigue-zague bem grande, tanto que rodei 102,58km em 6h46 de pedalada, porque o vento contra realmente não ajuda em nada. Mas espero que o vento continue nessa direção pra me ajudar na descida até o Vale do Loire.
E quanto aos gastos, foram bem poucos também, os 2,86€ do almoço, 5€ do camping, 5€ da pizza e 8,05€ das compras, total de 20,91€, o que me deixa um pouco abaixo do esperado, sem cair a qualidade de algumas coisas como comida, banho e lugar aquecido pra dormir.